A ilha como encruzilhada: mobilidade, dominação e hibridismo
II Colóquio Literaturas e Culturas Insulares
Published on Tuesday, March 03, 2026
Abstract
O II Colóquio Literaturas e Culturas Insulares convida à apresentação de propostas de comunicação que debatam os modos como as literaturas e culturas pensam, constroem, desconstroem e reconfiguram as identidades e as culturas insulares.
Announcement
29 e 30 outubro de 2026 Universidade dos Açores, Ponta Delgada (São Miguel)
Apresentação
Durante muito tempo concebidas como espaços isolados ou periféricos, as ilhas são hoje pensadas como pontos estratégicos de viagem, contacto e interligação. Situados no cruzamento de rotas comerciais, migratórias e turísticas, os territórios insulares constituem simultaneamente espaços de circulação e de fixação, pontos de partida e de chegada de migrações, exílios, diásporas e fluxos turísticos. Em paralelo, as alterações climáticas colocam grande parte das ilhas do planeta em risco, com a subida do nível das águas dos oceanos. A este risco ambiental somam-se a herança do papel fundamental de algumas ilhas nas histórias de colonização e que ainda hoje sustentam a desigual distribuição do risco ambiental sentido em alguns territórios arquipelágicos ou insulares. É este entendimento da ilha enquanto espaço de circulação, conflito, recomposição cultural e em risco, que o presente colóquio, uma iniciativa associada ao Doutoramento em Literaturas e Culturas Insulares (Universidade dos Açores, Universidade da Madeira, Université de Corse, INALCO) e ao CHAM Açores - Centro de Humanidades (FCSH NOVA/UAc), convida a problematizar a partir do Arquipélago dos Açores.
No âmbito dos Island Studies, autores como Godfrey Baldacchino (2013) e Pete Hay (2006) têm sublinhado a insularidade como uma condição histórica, política, económica e cultural específica, mas simultaneamente marcada por relações de dependência, circulação e negociação com espaços continentais e transnacionais.
A posição estratégica de muitas ilhas transformou-as em cenários privilegiados de dinâmicas de dominação, conflito e tensão, e de testes de transformação ecológica, que a literatura e a cultura contribuem para problematizar. Ao tematizarem as relações entre centro e periferia, dominação e resistência, memória e reapropriação — como evidenciam os trabalhos de Aimé Césaire, Édouard Glissant e Homi Bhabha —, as representações literárias e artísticas fazem da ilha um lugar de negociação dos vestígios do passado, das violências simbólicas e materiais, e das lutas pela emancipação cultural e política.
Estas dinâmicas contribuíram para a formação de sociedades insulares marcadas pela pluralidade linguística, cultural e identitária. Neste sentido, a ilha pode ser pensada como um “terceiro espaço” (Bhabha, 1994), isto é, como um espaço-entre (“in-between space”) de tradução e negociação cultural, e de luta ecologista, onde se produzem formas híbridas de identidade, linguagem e expressão artística, desafiando conceções essencialistas de cultura e pertença. Numerosos autores têm analisado a forma como a literatura e a cultura refletem estes processos em diferentes épocas e contextos geográficos (Fougère, 1995, 2004, 2024; Bernardie-Tahir, 2011; Fletcher, 2011; McMahon, 2016; McMahon & André, 2018; Crane & Fletcher, 2017), tanto a partir de perspetivas enraizadas nos próprios contextos insulares como de olhares continentais. São igualmente numerosos os autores que se debruçaram sobre a realidade portuguesa de matriz atlântica, marcada pelas especificidades históricas e culturais dos arquipélagos dos Açores e da Madeira (Almeida, 1983, 1989, 2011; Carneiro et al., 2016; Espínola et al., 2014; Freitas, 2013; Nemésio, 1932, 2023; Pires, 2013; Santos, 2013; Vieira, 2009, 2010). Convidamos à apresentação de propostas de comunicação que debatam os modos como as literaturas e culturas pensam, constroem, desconstroem e reconfiguram as identidades e as culturas insulares.
Os seguintes eixos temáticos são apresentados a título indicativo. Serão igualmente bem-vindas propostas que, a partir de outras perspetivas teóricas, disciplinares ou geográficas, dialoguem com a temática geral do colóquio:
Eixo 1 - Literaturas e culturas insulares: mobilidade, memória e refúgio
- Narrativas de migração, exílio e circulação transoceânica
- Insularidade, identidade e pertença cultural
Eixo 2 – Hibridismos, tradução e circulação de saberes
- Plurilinguismo e línguas em contacto em contextos insulares
- Circulação transnacional de obras e autores insulares
Eixo 3 – Perspetivas interdisciplinares sobre a insularidade
- Mobilidade, turismo e globalização
- Ecologia, ambiente, toxicidade e risco ambiental insulares
Informações importantes
As propostas de comunicação deverão incluir:
1. o(s) nome(s) do(s) autor(es) com a filiação institucional;
2. a indicação do eixo temático;
3. o título;
4. resumo (até 300 palavras);
5. palavras-chave (máximo 6).
Em anexo, deverá ser enviada uma pequena nota biográfica (até 250 palavras). Todas as propostas devem ser enviadas para o e-mail: cham.secretariado@uac.pt e com assunto: II Colóquio em Literaturas e Culturas Insulares.
As comunicações terão uma duração máxima de 20 minutos.
Embora o colóquio decorra em regime presencial, poderá ser aceite um número limitado de apresentações à distância, preferencialmente por parte de doutorandos.
Calendário
- 31 de maio de 2026 – Data-limite para submissão das propostas
- 30 de junho de 2026 – Comunicação dos resultados
- 29 e 30 de outubro de 2026 – Realização do colóquio
Publicação
Está prevista a publicação de uma seleção de textos resultantes do colóquio. Os artigos serão sujeitos a um processo de avaliação por pares.
Entrega dos textos, na versão final – até 31 de janeiro de 2027.
Taxas de inscrição
- Oradores Doutorados – 85 euros.
- Estudantes de Doutoramento e Bolseiros – 20 euros.
- Membros do CHAM, docentes das Universidades dos Açores, da Madeira, da Córsega e do INALCO – isentos.
- As despesas de deslocação, alojamento e alimentação ficam a cargo dos participantes.
Comissão Organizadora
- Ana Cristina Gil - CHAM Açores – Centro de Humanidades (NOVA/UAc)
- Dominique Faria - CHAM Açores – Centro de Humanidades (NOVA/UAc)
- Kathleen Gomes (Universidade dos Açores - Doutoranda)
- Leonor Sampaio da Silva - CHAM Açores – Centro de Humanidades (NOVA/UAc)
- Maria Madalena Silva - CHAM Açores – Centro de Humanidades (NOVA/UAc)
- Nuno Marques - CHAM Açores – Centro de Humanidades (NOVA/UAc)
- Telmo Nunes (Universidade dos Açores - Doutorando)
Comissão Científica
- Ana Isabel Moniz – Un. da Madeira (Portugal)
- Catarina Rodrigues – Un. Açores (Portugal)
- Diniz Borges – California State University, Fresno (EUA)
- Dominique Verdoni – Un. de Corse (França)
- Eugène Gherardi – Un. de Corse (França)
- Joana Maria Seguí Pons Un. Ilhas Baleares (Espanha)
- Leonor Coelho – Un. da Madeira (Portugal)
- Luísa Paolinelli – Un. da Madeira (Portugal)
- Maria da Luz Correia – Un. Açores (Portugal)
- Miguel Carranza Guasch – Un. Ilhas Baleares (Espanha)
- Odete Jubilado – Un. de Évora (Portugal)
- Onésimo Teotónio Almeida – Brown University (EUA)
- Pilar Damião – Pilar Damião – Un. dos Açores - CICS.UAc/CICS.NOVA.UAc (Portugal)
- Stéphane Sawas – INALCO (França)
- Susana Serpa Silva – Un. Açores (Portugal)
- Urbano Bettencourt – Açores (Portugal)
Bibliografia indicativa
Almeida, O. T. (1983). A questão da literatura açoriana. Angra do Heroísmo: Secretaria Regional de Educação e Cultura.
Almeida, O. T. (1989). Açores, açorianos, autonomia – Um espaço cultural. Ponta Delgada: Marinho Matos Brumarte Editor.
Almeida, O. T. (2011). Açores, açorianos, açorianidade: Um espaço cultural (2.ª ed.). Angra do Heroísmo: Instituto Açoriano de Cultura.
André, B. (2016). Iléité : Perspectives littéraires sur le vécu insulaire. Paris: Éditions Petra.
Baldacchino, G. (2004). The coming of age of island studies. Tijdschrift voor Economische en Sociale Geografie, 95(3), 272–283.
Baldacchino, G. (2013). Island landscapes and European culture: An “island studies” perspective. Journal of Marine and Island Cultures, 2(1), 13–19.
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Bernardie-Tahir, N. (2011). L’Usage de l’Île. Paris: Éditions Petra.
Bhabha, H. K. (1994). The Location of Culture. London: Routledge.
Carneiro, R., Almeida, O. T., & Matos, A. T. de (Coords.). (2016). A condição de ilhéu. Lisboa: Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa – Universidade Católica Portuguesa.
Césaire, A. (1950). Discours sur le colonialisme. Paris: Présence Africaine.
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Espínola, P., & Cravidão, F. (2014). A ciência das ilhas e os estudos insulares: Breves reflexões sobre o contributo da geografia. Sociedade & Natureza, 26(3), 433–444.
Fletcher, L. (2011). “. . . some distance to go”: A critical survey of island studies. New Literatures Review, 47–48, 17–34.
Fougère, É. (1995). Les Voyages et l’ancrage : Représentations de l’espace insulaire à l’Âge classique et aux Lumières (1615–1797). Paris: L’Harmattan.
Fougère, É. (2004). Escales en littérature insulaire : îles et balises. Paris: L’Harmattan.
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Freitas, V. (2013). O imaginário dos escritores açorianos (2.ª ed.). Ponta Delgada: Letras Lavadas.
Glissant, É. (1981). Le Discours antillais. Paris: Gallimard.
Glissant, É. (1990). Poétique de la Relation. Paris: Gallimard.
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Subjects
- Thought (Main category)
- Mind and language > Language > Literature
Places
- Ponta Delgada, Portugal
Event attendance modalities
Hybrid event (on site and online)
Date(s)
- Sunday, May 31, 2026
Attached files
Contact(s)
- Dominique Faria
courriel : dominique [dot] ar [dot] faria [at] uac [dot] pt
Information source
- Dominique Faria
courriel : dominique [dot] ar [dot] faria [at] uac [dot] pt
License
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To cite this announcement
« A ilha como encruzilhada: mobilidade, dominação e hibridismo », Call for papers, Calenda, Published on Tuesday, March 03, 2026, https://doi.org/10.58079/15srw

