AccueilQuando a natureza não é um recurso

Quando a natureza não é um recurso

Humanos e não humanos na resistência aos grandes projetos desenvolvimentistas

*  *  *

Publié le jeudi 17 janvier 2019 par Anastasia Giardinelli

Résumé

Este dossiê pretende reunir pesquisas multidisciplinares que reflitam as transformações teórico-epistemológicas dos conceitos natureza e cultura e seus desdobramentos, quando colocados frente alargamento do “objeto” antropológico para além do humano, com foco nas relações entre humanos e distintas categorias de não humanos. O objetivo é fomentar debates em torno de etnografias e análises povoadas de seres não humanos – animais, plantas, microorganismos, máquinas, artefatos, seres sobrenaturais, fenômenos metereológicos – por meio dos modos de relação trans-específicas, seja partindo de práticas específicas de manejo e modos de existência ditas tradicionais – como povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e agricultores familiares – seja através de contrastes desses saberes com os conhecimentos que se expressam em projetos de desenvolvimento econômico, seus cálculos de impacto socioambiental e suas propostas de mitigação. Interessa especialmente ao dossiê pesquisas que problematizem usos diversos de conceitos como ambiente, território, roça, floresta, territorialidade, sustentabilidade ambiental, impacto ambiental, devastação, práticas de manejo, recursos hídricos e florestais, fauna e flora, fenômenos meteorológicos, entre outros.

Annonce

Apresentação

A revista RELACult - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade - abre chamada para receber artigos para o Dossiê Quando a natureza não é um recurso: humanos e não humanos na resistência aos grandes projetos desenvolvimentistas, cuja proposta visa propiciar espaço para fomentar debates em torno de etnografias e análises povoadas por seres não humanos e por formas de relações trans-específicas, seja partindo de práticas específicas de manejo e modos de existência ditas tradicionais – como povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e agricultores familiares – seja através de contrastes entre esses saberes e os conhecimentos que alimentam e se expressam em projetos de desenvolvimento econômico, seus cálculos de impacto socioambiental e suas propostas de mitigação. 

Nesse sentido, espera-se evidenciar, por meio dos artigos reunidos no dossiê, que nenhum conhecimento se encontra ou pode se desejar desengajado do mundo, sejam nos contextos tradicionais, sejam naqueles dos cenários capitalistas-desenvolvimentistas. O objetivo é dar lugar a pesquisas multidisciplinares e reflexões sobre transformações teórico-epistemológicas dos conceitos natureza e cultura e seus desdobramentos, quando colocados frente alargamento do “objeto” antropológico para além do humano, com foco nas relações entre humanos e distintas categorias de não humanos (animais, plantas, microorganismos, minerais, máquinas, fenômenos climáticos, formações geológicas, corpos d’água, entre vários outros). Interessa especialmente ao dossiê resultados de pesquisas que reflitam acerca dos encontros e desencontros entre todos os atores engajados nos meandros das questões ambiental e territorial e que problematizem usos diversos de conceitos como ambiente, território, territorialidade, sustentabilidade ambiental, impacto ambiental, conservação, devastação, práticas de produção e de manejo, recursos hídricos, faunísticos e florestais, entre outros. Mais especificamente, pretende-se abrir espaço para o lugar e a agência dos variados seres não humanos na produção e co-produção de discursos e práticas específicas de manejo e modos de existência dos diversos povos tradicionais, levando-se em conta o fato de que esses seres, embora sejam de extrema importância para os modos de vida dos povos tradicionais e indígenas, são sistematicamente ignorados pelos grandes projetos político-econômicos nacionais e internacionais, a não ser quando tratados como recursos, convertidos em números, tomados meramente como quantidades a serem medidas e administradas por pilhas de papeis e miríade de gráficos e tabelas.

Este dossiê pretende reunir pesquisas multidisciplinares que reflitam as transformações teórico-epistemológicas dos conceitos natureza e cultura e seus desdobramentos, quando colocados frente alargamento do “objeto” antropológico para além do humano, com foco nas relações entre humanos e distintas categorias de não humanos. O objetivo é fomentar debates em torno de etnografias e análises povoadas de seres não humanos – animais, plantas, microorganismos, máquinas, artefatos, seres sobrenaturais, fenômenos metereológicos – por meio dos modos de relação trans-específicas, seja partindo de práticas específicas de manejo e modos de existência ditas tradicionais – como povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e agricultores familiares – seja através de contrastes desses saberes com os conhecimentos que se expressam em projetos de desenvolvimento econômico, seus cálculos de impacto socioambiental e suas propostas de mitigação. Interessa especialmente ao dossiê pesquisas que problematizem usos diversos de conceitos como ambiente, território, roça, floresta, territorialidade, sustentabilidade ambiental, impacto ambiental, devastação, práticas de manejo, recursos hídricos e florestais, fauna e flora, fenômenos meteorológicos, entre outros.

Nesse sentido, espera-se evidenciar, por meio dos artigos reunidos no dossiê, que nenhum conhecimento se encontra ou pode se desejar desengajado do mundo. Tal enraizamento dos saberes e práticas de conhecimento no mundo aponta para o fato de que “o mundo” não é um material cru a espera da humanização (por meio das práticas de conhecimento), mas uma síntese sempre dinâmica entre as materialidades e as modalidades de conhecê-las, entre alicerces ontológicos e procedimentos epistemológicos. Tomar a presença insistente dessa pletora de não humanos na vida social, reconhecendo as agências de todos os sujeitos, humanos e não humanos, como condutoras de inquietantes possibilidades reflexivas - especialmente no não tratamento do conceito de natureza e seus correlatos enquanto meros “recurso” – deve operar desestabilizações político-epistemológicas das fronteiras humano-animal, organismo-máquina, além de outras, contribuindo para o alargamento dos alcances teóricos e políticos da antropologia social.

Breve justificativa sobre a escolha do tema. 

A América Latina conta com uma das mais ricas e importantes diversidades biológicas e culturais do mundo. Seus diversos espaços vêm sendo apropriados e culturalizados por numerosas sociedades humanas há milênios, o que produziu a riquíssima diversidade de paisagens e de práticas que se pode testemunhar ontem e hoje. Contudo, atualmente, com a mundialização cada vez mais aguda do sistema capitalista, as políticas desenvolvimentistas, as práticas de fomento e glorificação do agronegócio, a ocupação desordenada das últimas fronteiras, o livre comércio internacional, entre tantos fatores, essa diversidade encontra-se, mais do que nunca, em perigo. Os desequilíbrios que se instauraram entre as atividades humanas industrializadas, o meio ambiente e modos de existência de povos tradicionais aparecem como uma grande preocupação para diferentes atores nessas últimas décadas. Políticas ambientais nacionais e internacionais emergiram no intuito de minimizar os impactos e de gerenciar os espaços ditos “naturais”, e políticas socioculturais foram desenhadas para tentar documentar e salvaguardar práticas ditas indígenas, tribais ou tradicionais ameaçadas pela expansão do sistema-mundo. Com o objetivo de refletir sobre as múltiplas interconexões entre naturezas e culturas, cada vez mais elaboram-se políticas socioambientais, reconhecendo que a separação entre o biológico e o social deve ser sempre abordada criticamente.

Uma das ações vinculadas às recentes políticas ambientais geridas por setores estatais e por organizações não governamentais é a categorização de determinados espaços enquanto necessitados de proteção, o que se têm desenvolvido por meio de várias medidas legais e práticas administrativas e tecno-centíficas como projetos de sustentabilidade e demarcação de territórios como terras indígenas, unidades de conservação, territórios quilombolas, assentamentos rurais e áreas destinadas á agricultura familiar.

As ações políticas de gestão ambiental costumam acompanhar grandes projetos de desenvolvimento (usinas hidrelétricas, rodovias, ferrovias, gasodutos, hidrovias, grandes empreedimentos hoteleiros etc), seja como entraves ao seu desenvolvimento, seja como consequência de sua implantação, como se pode notar para o caso da região amazônica, associando-se tanto como medidas de compensação quanto como projetos alternativos de segurança alimentar e manutenção da biodiversidade. Tais ações nunca ocorrem sem conflitos, que surgem tanto da diferença de opiniões em relação à implantação de projetos para aceleramento econômico quanto em relação aos modos locais de produção da existência, por meio de práticas específicas de manejo e organização da vida, que revelam pontos de dissonância mais profundos.

Se os conhecimentos tradicionais passaram a ser tratados na antropologia como regimes de pensamento tão complexos quanto o conhecimento moderno ocidental (dito científico) desde a publicação da obra de Lévi-Strauss, La Pensée sauvage, em 1962, em termos de efetivação de direitos, eles vêm ganhando maior visibilidade desde a Cúpula dos Povos, realizada no Rio Janeiro, em 1992, especialmente com a elaboração do artigo artigo 8º  da Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB). Uma valorização que passou também a ser uma importante questão na arena política com a participação ativa dos movimentos indígenas, quilombolas, camponeses e de outras populações marginalizadas junto a outros grupos da sociedade civil em busca da garantia de seus direitos e respeito a seus modos de existência.

Ainda assim, essa valorização precisa ser melhor vinculada às (e abraçada pelas) políticas públicas e ações empresariais, que nem sempre estão dispostas a realizar esses diálogos em audiências públicas, respeitando protocolos de consulta e oitivas. É bastante comum que a dificuldade de diálogo com as chamadas populações tradicionais seja elencada por tais setores estatais e empresariais como empecilhos para a realização de projetos que levem em consideração regimes de saber e demandas específicas. Assim, o estabelecimento de um terreno propício ao diálogo entre os conhecimentos científicos que emanam do pensamento “moderno” ocidental e os demais conhecimentos ditos “tradicionais”, tem se tornado importante questão tanto para os projetos desenvolvimentistas quanto para as populações locais. Um debate que tem se realizado, por exemplo, em torno do conceito de “preservação ambiental” e quais sentidos práticos ele pode acarretar, em distintas escalas de análise (aldeão, local, regional, nacional, global).

A justificativa desta proposta de dossiê é, então, propiciar espaço para fomentar o debate sobre políticas de sustentabilidade e projetos desenvolvimentistas, reunindo pesquisas que reflitam acerca dos encontros e desencontros entre todos os atores engajados nas problemáticas de questão ambiental e territorial. Mais especificamente, pretende-se abrir espaço para o lugar e da agência dos variados seres não humanos na produção e co-produção de discursos e práticas específicas de manejo e modos de existência dos diversos povos tradicionais e os demais, levando-se em conta o fato de que esses seres, embora sejam de extrema importância para os modos de vida dos povos tradicionais e indígenas, são sistematicamente ignorados pelos grandes projetos político-econômicos nacionais e internacionais, a não ser quando tratados como recursos, convertidos em números, enxergados meramente como quantidades a serem medidas e administradas por pilhas de papeis, gráficos e tabelas.

Submissão de propostas

Aceitam-se contribuições em português, inglês e espanhol que serão submetidas à apreciação da Comissão e do Conselho Editorial, sendo garantida a avaliação cega por pares. O simples envio dos trabalhos não garante sua publicação. As normas para publicação estão em:

http://periodicos.claec.org/index.php/relacult/about/submissions#onlineSubmissions

Os textos deverão ser submetidos por meio do Portal de Periódicos Digitais do CLAEC, no seguinte endereço: http://periodicos.claec.org/index.php/relacult/index

Publicação no PRIMEIRO QUADRIMESTRE DE 2019 em JUNHO de 2019, Vol. 05, nº01 

Recebimento: De JANEIRO Até 30 de ABRIL de 2019

Organizadores 

  • Dra. Thais Regina Mantovanelli
  • Dra. Stéphanie Tselouiko 
  • Dr. Felipe Vander Velden 

Lista de referências bibliográficas

  • Selmi, Adel e Hirtzel, Vincent (Eds.), 2007. Gouverner la nature. Cahier d’anthropologie Sociale, n. 3
  • Carneiro da Cunha, Manuela. 2012. Savoirs autochtones: quelle nature, quels apports? Paris: Collège de France/Fayard, coll. «Leçons inaugurales du Collège de france», n.227.
  • Aubertin, Catherine e Rodary, Estienne (Eds). 2008. Aires protégées: espaces durables?. Marseille: IRD.
  • Calavia Saez, Oscar. 2015. O território, visto por outros olhos. Revista de Anthropologia, v. 58, n.1, São Paulo, pp. 257 – 284.
  • Descola, Philippe. 1996. Constructing natures, symbolic ecology and social practice. In Descola P. Palsson G. (Orgs). Nature and society. Anthropological perspectives. London and New York : Routledge, pp.82-103.
  • Houdart, Sophie e Thiery, Olivier (Orgs). Humains, non-humains. Comment repeupler les sciences sociales. Paris, La Découverte, 368p.
  • Ingold, Tim. The perception of the environment: essays on livelihood, dwelling and skill, London : Routledge, 480 p.
  • Latour, Bruno. Nous n’avons jamais été modernes. Essai d’anthropologie symétrique. Paris : La Découverte, 207 p.
  • Nadasy, Paul. 2003. Hunters and bureaucrats: power, knowledge and aboriginal-state relations in the southwest Yukon. Vancouver: UBC Press.
  • Maffi, Luisa (Ed.). 2001. On Biological Diversity: Linking Language, Knowledge, and the Environment. Washington: Smithsonian Institution Press.
  • Kawa, Nicholas. 2016. Amazonia in the Anthropocene: peoples, soils, plants, forests. Austin: University of Texas Press.
  • Kohn, Eduardo. How forests think: toward an anthropology beyond the human. Berkeley: University of California Press, 2013. 288p.
  • Kopenawa, Davi & Albert, Bruce. 2013. The falling skies: words of a Yanomami shaman. Cambridge: Belknap Press.
  • Kirksey, S. Eben & Helmreich, Stefan. The emergence of Multispecies Ethnography. Cultural Anthropology, v. 25, n. 4, p. 545-576.
  • Surralés, Alexandre & Hierro, Pedro Garcia (Eds). 2005. The land within: indigenous territory and the perception of environment. Copenhagen: IWGIA.

Dates

  • mardi 30 avril 2019

Mots-clés

  • virada ontológica, cosmopolítica, projetos desenvolvimentistas, territorialidade.

Contacts

  • Stéphanie Tselouiko
    courriel : stephanie [dot] tselouiko [at] gmail [dot] com
  • Felipe Ferreira Vander Velden
    courriel : felipevelden [at] yahoo [dot] com [dot] br
  • thais regina Mantovanelli
    courriel :

Source de l'information

  • Stéphanie Tselouiko
    courriel : stephanie [dot] tselouiko [at] gmail [dot] com

Pour citer cette annonce

« Quando a natureza não é um recurso », Appel à contribution, Calenda, Publié le jeudi 17 janvier 2019, https://calenda.org/545135

Archiver cette annonce

  • Google Agenda
  • iCal